quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Viagem de Chihiro II - Sol e Netuno

O primeiro grande desafio de Chihiro é limpar um espírito que todos tem nojo. Sua imagem é notável: gigantesco, parece uma grande bola de cocô. Durante sua limpeza - que ocorre apenas quando Chihiro percebe que o espírito está, na verdade, machucado - todo tipo de impurezas saem de seu corpo: bicicleta, móveis, etc. E, num grande expurgo, o espírito mostra-se na verdade como um ente benéfico, que presenteia Chihiro com um "bolinho de ervas".
Assim, temos a transmutação grotesco-sublime no diapasão netuniano e o presente (lunar, pois é alimento físico) como resultado. Chihiro curou o espírito pois não teve medo de "meter a mão" na merda (aparente). Um gesto de amor e doação. Isso é Sol, que se queima e nos alimenta com sua luz e clareza, atuando sobre um amálgama Netuno-Saturno.
Em seguida, Chihiro descobre que seu amigo (e novo amor) Haku está enfeitiçado e decide ajudá-lo. Assim, quando na forma de um dragão, Haku come o "bolinho de ervas" (no prinípio ele a alimentara, agora a situação se inverte.) Mas isso não é suficiente. Chihiro decide viajar até a casa da bruxa que o enfeitiçou para salvá-lo.
A ligação entre Chihiro e Haku é misteriosa: ele lembra-se do nome dela mas não sabe porquê. E lembrar é o mote da história: Chihiro não pode esquecer seu nome (sua identidade) e seus pais "esqueceram" que eram humanos e "comeram como porcos".
A segunda viagem de Chihiro (uma viagem dentro da viagem) é empreendida por sua vontade, movida pelo seu amor e necessidade de salvar. Aqui, a passividade lunar cede espaço ao caráter ativo solar. E ela ganha companheiros de viagem, num típico movimento de expansão Sol-Júpiter.
Lá, conhece a irmã-gêmea de Yubaba, desta vez um arquétipo lunar positivo. E lhe devolve aquilo que Haku havia roubado e que lhe causara o feitiço.
Como podemos imaginar a conclusão da história, Chihiro salva seus pais e sei amigo/amor Haku, que resurge esplendoroso na forma de um belo Dragão.
E compreendemos, afinal, a origem da ligação entre Chihiro e Haku: ele (num momento anterior, quando era um rio) a salvara quando ela estava prestes a se afogar, levando-a para a margem. Assim, podemos concluir com a síntese da noção solar-indivíduo com a porosidade netuniana: Rio (sua forma despersonalizada) e o salvador, o próprio Haku.
Podemos concluir que o que está sugerido, ao fundo, é que o paradoxo Sol-Netuno (tradicionalmente associado a desgraças) é resolvido aqui de uma maneira harmoniosa e delicada. Num momento em que o meio-ambiente é foco de preocupações constantes, lembrar de nosso amigo Netuno e buscar sintonizar-se com ele não é uma idéia de todo mal.

1 comentário:

Mariana Akamine disse...

Oi, Pedro!

Muito legal o seu blog! Vou entrar mais vezes, certeza! Gostei especialmente desse texto porque adoro esse filme e a sua interpretação me fez querer vê-lo de novo, o quanto antes! Parabéns!

bjo!